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segunda-feira, fevereiro 14, 2005 

A invenção do namoro e outras ficções felizes

Por Fernanda Câncio

Há formas de namoro que ainda são discriminadas

Importação anglo-saxónica, a celebração que hoje se realiza um pouco por todo o mundo não conquistou ainda todos os portugueses, nem faz disparar as vendas para presentes como noutras paragens já se verifica. Mas todos os pretextos são bons para namorar. Ou para falar disso, como neste texto, através das histórias de amor que aqui se contam.

"Acho que se pode ter três amantes, um marido, quatro flirts e mesmo assim não ter namoro com ninguém." É assim, raro e "muito difícil, quase impossível, de bater com a cabeça nas paredes", que Raquel Freire, 31 anos, realizadora de cinema, vê "esse exercício que nos faz melhores", essa "forma de respeito" pelo outro e pelo próprio no qual a sua personagem Sara Só, protagonista de A Vida Queima, a fita que está a terminar, deixou de ser capaz de se aplicar. Porque "perdeu a ideia absolutamente mitificada do amor e da relação amorosa, o mito do amor que salva".

A pergunta era - e que perdoe, lá na sua sepultura, o americano Raymond Carver, mais esta contrafacção ao título de um dos seus contos - de que falamos quando falamos de namorar. Também pode ser de que falamos quando falamos de namorados, e, de súbito, este texto "de comportamento" pode transformar-se numa peça política da maior acuidade, convocando por exemplo o primeiro anúncio televisivo anti-homofobia, que na semana passada inaugurou nos ecrãs uma nova forma de luta contra a discriminação, ao encenar num jardim público e à luz do dia um casal de rapazes que se passeiam de mão dada, para escândalo de duas idosas, que quase sufocam no comentário "Que pouca-vergonha! De manga curta com este frio!"

Uma ironia suave que Sérgio Vitorino, da associação Panteras Rosa, faz pesar quando recorda que ainda no Verão passado dois jovens de 15 anos a beijar-se no Parque Eduardo VII, a meio de uma bela tarde de sol, foram abordados por dois agentes da Polícia Muunicipal, que lhes disseram ser aquilo que faziam "proibido" e os mandaram, como era costume há trinta anos, "circular". E, como há trinta anos, quando um dos jovens resolveu recitar a Constituição, os agentes acharam por bem agredi-lo. "Isto", comenta Vitorino sem que a voz lhe traia a fúria, "quando havia mais não sei quantos casais de namorados à volta, a fazer o que fazem os namorados. Com uma pequena diferença eram heterossexuais".

Nada de espantar então que quem se apaixona por alguém do mesmo sexo se engulhe na expressão pública dos gestos de carinho de quem inicia uma relação. "Muitas vezes restringem-nos às quatro paredes da casa. Aconteceu comigo, quando era mais novo o meu primeiro namorado queria dar-me a mão na rua, por exemplo, e eu ficava apavorado."

Nem por acaso, a jornalista Ana Sá Lopes, que nas páginas do Público desenhou, em crónicas reunidas num livro lançado há poucas semanas, a personagem da muito namoradeira e tresloucada Vanessa, que soma flirts e "casos" sem desistir de um princípe encantado, vê no dar das mãos a essência disso a que se chama namoro. "É a coisa mais significativa. Andar de mão dada na rua é o anúncio do namoro, é quando queres que os outros saibam." Uma garotice, um segredo revelado e uma passagem de corrente que define o estado da relação. "Por exemplo, quando se vê um casal de uma certa idade de mão dada é muito comovente. É porque ainda namoram."

Como quem diz, ainda se amam. Ainda "se apetecem", como dizem no dicionário os sinónimos, que a namorar equivalem "arrulhar, atrair, cativar, catrapiscar, cobiçar, cortejar, flertar, galantear, paquerar, graxear, prosear, requebrar, seduzir, afeiçoar-se". Mas também, acrescentam os linguistas, "tourear e azeitar" provocar. O namoro como relação e sua antecâmara, desfecho e prévio cerco.

Um momento de que Ana Sá Lopes sublinha a graça transitória. "É o lado da maior liberdade, do deslumbre, do maior encantamento." Uma terra, diz, a meio de duas fronteiras "Entre essa ausência de compromisso, o epifenómeno afectivo que é 'o caso' e o casamento, que já mete as contas, as promessas de compra e venda, a parte mais adulta."

Entre o caso (ou, numa linguagem mais adolescente, a "curte", a "transa") em que o sexo é princípio, meio e fim, e o casamento, em que faz parte do contrato, o namoro tem uma ressonância quase pudica. De antecipação e descoberta, de intensidade e celebração. Há quem, como Fábio Vieira, o veja como uma longa preparação para a união final dos corpos.

Com a sua namorada, da mesma idade, este açoriano a estudar em Lisboa decidiu optar pela abstinência. "É uma atitude no mínimo radical, eu sei", diz o próprio, num sorriso. "As pessoas da minha idade, quando falamos sobre isso, têm uma atitude no mínimo de espanto. Mas não me influenciam." Nem os amigos nem o "bombardeamento" erótico da sociedade ocidental. "Não tenho uma atitude moralizadora em relação aos outros. Mas hoje em dia os jovens partem logo para o sexo. Nem dão tempo a que o desejo cresça."

Para Fábio, que quis ser padre e estudou numseminário até "sentir um despertar não compatível" com essa entrega, o que se ama é, antes de mais, "a pessoa por dentro". Lara Crespo, de 33 anos, não podia estar mais de acordo. Mulher por dentro e por fora (no que interessa à observação do dia-a-dia), Lara nasceu com os sinais exteriores de masculinidade que ainda hoje - e até ser operada - lhe decretam um lugar de limbo nas relações humanas. "Não tenho namorado agora. É muito complicado um homem assumir uma relação comigo. Não pela reacção de quem nos vê, mas porque, na cabeça deles, é muito difícil integrar esses dois factos eu sou uma mulher mas tenho um pénis."

Transexual ou, como prefere ser chamada, "transgénero", Lara, que crê que "um homem não se define pelo pénis e uma mulher não se define pela vagina", nunca viveu o namoro que sonha. "Na relação mais longa que tive - um ano e dois meses - ele não me dava um beijo em público, nem sequer a mão... só dentro de casa." Mesmo assim, esta "romântica incurável" ainda não desesperou de encontrar "aquele que se vai interessar por mim como pessoa, que me ame e me assuma pelo que sou." E com quem possa passar o Dia dos Damorados ideal "Ir até ao mar, passear um bocado na areia, jantar a dois num restaurante simpático e uma noite a fazer amor."

Toda a gente, parece, tem os mesmos sonhos. Joaquim Marques Rocha, 44 anos, não é excepção, mesmo se nunca soube o que é olhar nos olhos, como os namorados olham, a sua namorada. Mas não foi por isso que, cego desde os 15, "da noite para o dia", devido a uma atrofia do nervo óptico, deixou de procurar o amor. Casou, descasou, namorou, e até, mesmo sem ver, se apaixonou "à primeira vista". Ele explica "Já me aconteceu sentir uma atracção inexplicável ao conhecer uma pessoa. É a voz, a maneira de falar..." Não foi o caso da actual namorada, uma colega de trabalho cujo retrato , da altura ao peso e à cor dos olhos, recita na exactidão "do ouvir dizer", como se inventasse a heroína de um romance - o seu.

Maria Emília Correia, actriz e encenadora que construiu a peça Serviços d'Amores, em cena no Teatro D. Maria, com base em textos de Gil Vicente, assente. "Vivemos sempre de acordo com ficções deus, o país, a felicidade, a paixão, etc. É que muitas vezes o que se ama não é o outro mas o amor em si e a ideia de se estar apaixonado. Aquilo a que se chama felicidade está sujeito a uma permanente revalidação, e é efémera, como o amor. O poeta Vicente sabia disto tudo . E nós também, mas distraímo-nos. Que remédio."

Remédio e única receita tentar, e falhar, e voltar a tentar. Para, como diz Raquel Freire, "Inventar uma forma nobre de alegria com alguém". É isso, namorar.

Publicado no Diário de Notícias.

Objectivo

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