sábado, fevereiro 26, 2005 

Divórcio «gay»

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Daniele La Monaca/Reuters

Numa época em que muito se fala na legalização dos casamentos «gay», a notícia não é uma boda, mas sim um divórcio. Os estilistas italianos Domenico Dolce e Stefano Gabbana anunciaram a separação após 19 anos de vida em comum. Donos da mundialmente famosa marca Dolce & Gabbana, avaliada em 600 milhões de euros, os costureiros formavam um dos casais homossexuais considerados mais estáveis até agora. Domenico e Stefano declararam que a decisão é irreversível e que já têm novos companheiros, embora afiancem que «nunca se deva dizer nunca». Os estilistas afirmam que a separação foi amigável. Como prova, Dolce e Gabbana continuam a trabalhar juntos e a compartilhar a empresa e a casa em Milão, embora agora um viva no quinto andar e o outro no sexto.

Publicado na Única.

 

Violência entre homossexuais próxima da registada entre casais heterossexuais

Por Ana Cristina Pereira

Um sistema de justiça "extremamente preconceituoso" leva as vítimas a não recorrer às autoridades

A frequência dos comportamentos abusivos entre casais homossexuais é relativamente próxima da que ocorre entre heterossexuais. Pelo menos assim o indica um estudo recente da Universidade do Minho (UM), que alerta para a necessidade de alargar os serviços a estas vítimas.
O trabalho, realizado no ano passado, tentou compreender uma realidade "ignorada ou negada", explica a investigadora Carla Machado. Ignorada por causa do predomínio das relações heterossexuais dentro das ciências sociais, mas também "pelo medo que a comunidade homossexual de diversos países tem" de ver alimentar "um estereótipo negativo e estigmas associados à homossexualidade".
No artigo "Dupla invisibilidade: a violência nas relações homossexuais", Carla Machado lança ainda outras pistas para esta ocultação: a ideia de que apenas os homens protagonizam agressões, a crença de que as "relações entre indivíduos do mesmo sexo tendem a ser igualitárias e imunes à violência íntima" e "o funcionamento de um sistema de justiça extremamente preconceituoso", que leva as vítimas a não recorrer às autoridades.
Apesar de ter por base uma diminuta amostra de 63 indivíduos assumidos como homossexuais, o estudo traz resultados muito semelhantes aos encontrados noutros países. Atendendo à relação amorosa actual, um quinto (20,6 por cento) dos inquiridos identificaram-se como vítimas e 15,9 por cento como agressores.
"O nível de violência é próximo" do dos casais heterossexuais. Numa investigação sobre violência conjugal entre homem e mulher conduzida no Norte do país (tendo por base 2391 famílias), 22,2 por cento dos sujeitos assumiram-se como vítimas e 26,22 como agressores.
As diferenças "têm, sobretudo, a ver com o elevado nível de escolaridade" da amostra homossexual, diz a investigadora, sublinhando que "a violência de género existe e é dominante" na sociedade, mas "a violência doméstica é um fenómeno muito mais complexo do que isso".
Também entre os homossexuais o insulto e a humilhação constituem as formas mais recorrentes de agressão. Há, ainda assim, uma especificidade: o revelar ou ameaçar revelar a orientação sexual do parceiro - uma estratégia assumida por 1,6 por cento dos inquiridos.
Atendendo à discriminação social a que estes indivíduos estão sujeitos, tal atitude pode resultar, por exemplo, na "perda de emprego ou no abandono de familiares e amigos".

Relações anteriores
mais problemáticas?
O índice de violência sobe imenso quando as questões incidem sobre relações anteriores: 61,9 por cento e 46 por cento dos inquiridos referiram, respectivamente, terem sido vítimas ou agressores em relações passadas, o que Carla Machado não estranha.
A literatura descreve o conjunto de razões que levam a vítima a ter dificuldade em virar costas à situação - "proximidade emocional, falta de apoio social, dificuldades económicas, medo de rejeição pela comunidade homossexual, isolamento social".
Outra hipótese tem que ver com as próprias limitações do estudo. O contexto do preenchimento do inquérito não foi controlado. É "impossível saber" até que ponto as respostas não estão viciadas pelo facto de os agressores actuais "pressionarem as vítimas para ocultar alguns dos comportamentos abusivos".

"Cegueira social"
Um "dado a reter" é que alguns dos comportamentos referenciados no passado ocorreram em relacionamentos heterossexuais. Mas há que ter em conta que "as atitudes negativas veiculadas pela sociedade em relação à homossexualidade, aliadas à legitimação social da violência nas relações íntimas", tornam esta realidade muito mais difícil de denunciar. Resultado? "Os agressores não são punidos pelos seus comportamentos e podem mesmo reforçá-los", escreveu Carla Machado.
Reconhecendo debilidades e limitações (ver caixas), o estudo alerta "para a importância de se reflectir sobre a forma de alargar os serviços disponíveis para as vítimas, de modo a incluir" os homossexuais. A investigadora diz mesmo que "o maior desafio face à violência nas relações homossexuais é a cegueira social".
Na opinião de Carla Machado, "é fundamental as próprias instituições ultrapassarem as suas ideias homofóbicas, assim como a crença de que as relações lésbicas e "gays" são imunes à violência, para fornecer serviços apropriados e desenvolver políticas sociais efectivas", remata. Os investigadores estão agora a fazer entrevistas aprofundadas para perceber melhor esta realidade.

Ideias Fortes

"Tal como nos casais heterossexuais, os sujeitos homossexuais recorrem, frequentemente, à violência como uma forma de lidar com os problemas e de expressar os seus sentimentos", especifica o estudo da Universidade do Minho, a que o PÚBLICO teve acesso. "Esta situação ainda é mais grave se considerarmos que os homossexuais vítimas de violência nas relações íntimas se deparam com dificuldades acrescidas: a discriminação e a homofobia, que se combinam para criar uma aprovação implícita dessa violência."

Curiosidades

Não foram encontradas diferenças significativas relativamente ao facto de a orientação sexual do sujeito ser ou não conhecida. "Estes dados parecem sugerir que mesmo aqueles cuja família tem conhecimento da sua homossexualidade podem não se sentir à vontade para revelar as situações de vitimação e ou agressão a que estão expostos, quer pelo mesmo tipo de condicionantes a que as vítimas em geral estão sujeitas, quer pelo eventual receio de que esta informação agrave as visões negativas e hostis relativas à homossexualidade."

Debilidades

Por causa das "dificuldade de acesso à população homossexual, a amostra utilizada é pequena e não representativa". De resto, "considerando que praticamente todos os participantes estão envolvidos em alguma organização homossexual", pode-se inferir "que estes representam uma minoria particularmente activa, consciente e confortável com a sua homossexualidade, que não corresponde à população homossexual "escondida"". O grosso da amostra é composta por "sujeitos de perfil urbano, escolarizado". É de supor que uma amostra mais plural revelaria mais violência .

Limitações

Não foi controlado o contexto de preenchimento do inquérito. É provável "que algumas vítimas ocultassem comportamentos violentos devido à pressão dos (as) parceiros (as) violentos (as), ou com medo de represálias. Da mesma maneira, alguns agressores podem ter omitido condutas violentas em relações passadas.

Publicado no Público.

terça-feira, fevereiro 22, 2005 

Episódio 'gay' de 'Os Simpsons' agarra americanos à TV

Por Manuel Ricardo Ferreira, correspondente em Nova Iorque

POLÉMICA


Animação acende o tema e o confronto de diferentes ideias

Foi um segredo bem guardado até ao último segundo. Quando às 20.00 horas de domingo começou a ser transmitido o episódio de Os Simpsons intitulado Há qualquer coisa com o casamento, sabia-se que o tema eram os casamentos gay. Mas nada se sabia sobre quem iria revelar a sua homossexualidade. Nem se um casal gay chegaria ao ponto de dar um beijo em público. Uma mão cheia de razões para que o episódio fosse seguido atentamente de costa a costa nos EUA.

Tudo começa quando Quimby, o autarca de Springfield, decide legalizar os casamentos homossexuais na cidade para atrair visitantes. De imediato, Homer Simpson tira um curso de sacerdote pela Net e abre uma capela, propondo casamentos gay a 200 dólares.

Quem se revela homossexual? Patty Bouvier, a irmã de Marge Simpson, que está sempre de cigarro na boca e tem como parceira Veronica, uma profissional de golfe. No último momento, quando Homer está prestes a legalizar a união, Marge impede-o, denunciando Veronica como sendo um travesti.

Em 15 anos consecutivos, Os Simpsons tornaram-se no espelho da pequena cidade americana, sintetizando os debates que mais empolgam os americanos. O lançamento da discussão sobre os casamentos homossexuais não foi excepção e o tiroteio de ambos os lados da barricada não tardou.

Stephen Macias, director da Aliança Gay & Lésbica Contra a Difamação, considera Os Simpsons "um raio de luz no que respeita à Fox News e à Fox Entertainment", canal onde a série é transmitida mas conhecida, sobretudo, pelas suas posições conservadoras. No entanto, Al Jean, o produtor executivo da série, frisa que o episódio não aprova os casamentos gay.

Claro que as organizações que são contra eles vêem o caso de maneira totalmente oposta. Para Roberta Knight, das Mulheres Preocupadas da América, a TV está a ficar obcecada com a homossexualidade. E Brent Bozell, do Conselho dos Pais para a Televisão, diz que "numa altura em que o público se pronuncia maioritariamente contra os casamentos gay, qualquer programa que os promova está deliberadamente a contrariar a opinião pública".

Já para Marty Kaplan, deão da Escola de Comunicação de Annenberg (da Universidade do sul da Califórnia), o episódio "está a dizer aos que demonizam a homossexualidade que se acalmem ou vão embora desta cidade. Estas pessoas são vossos vizinhos na Springfield que é a América".

Publicado no Diário de Notícias.

 

Casamento gay em episódio de "Os Simpsons"

Polémica nos EUA



O último episódio de "Os Simpsons" exibido nos Estados Unidos está a causar grande polémica. E tudo porque a irmã de Marge Simpson, Patty Bouvier, revelou que era lésbica, enquanto Homer celebrou uma série de casamentos entre pessoas do mesmo sexo.

O programa inflamou vários grupos conservadores, pois tocou na ferida dos americanos a legalização do casamento gay.

Nesta história de desenhos animados, o prefeito Quimby legaliza as uniões gay com o objectivo de tirar Springfield da crise. Homer conseguiu uma licença para ser pastor e poder cobrar 200 dólares por cada casamento. O único morador da cidade a não concordar com a ideia é o reverendo Lovejoy, enquanto que a sempre "politicamente correcta" Marge é uma das que mais apoiam a novidade, até que fica a saber que a irmã é lésbica.

O episódio de "Os Simpsons" incluiu beijos gay e foi exibido depois de um aviso de advertência aos pais. Refira-se que a série é transmitida na estação Fox, aos domingos, no horário nobre; onde consegue, frequentemente, boas audiências.

Publicado no Jornal de Notícias.

quinta-feira, fevereiro 17, 2005 

'The Economist' chega ao milhão de revistas vendidas

A prestigiada revista The Economist, com sede em Londres, atinge hoje a marca de um milhão de exemplares vendidos, um facto inédito desde que a publicação foi criada, há 162 anos.

(...)

Em 1996, a revista publicou um editorial onde apelava à legalização global do casamento entre homossexuais. Um apelo que viria a repetir nos anos seguintes.

(...)

Para Christopher Collins, o sucesso da revista deve-se "à procura crescente de pontos de vista independentes e imparciais" sobre os grandes temas da actualidade.

Publicado no Diário de Notícias.

segunda-feira, fevereiro 14, 2005 

A invenção do namoro e outras ficções felizes

Por Fernanda Câncio

Há formas de namoro que ainda são discriminadas

Importação anglo-saxónica, a celebração que hoje se realiza um pouco por todo o mundo não conquistou ainda todos os portugueses, nem faz disparar as vendas para presentes como noutras paragens já se verifica. Mas todos os pretextos são bons para namorar. Ou para falar disso, como neste texto, através das histórias de amor que aqui se contam.

"Acho que se pode ter três amantes, um marido, quatro flirts e mesmo assim não ter namoro com ninguém." É assim, raro e "muito difícil, quase impossível, de bater com a cabeça nas paredes", que Raquel Freire, 31 anos, realizadora de cinema, vê "esse exercício que nos faz melhores", essa "forma de respeito" pelo outro e pelo próprio no qual a sua personagem Sara Só, protagonista de A Vida Queima, a fita que está a terminar, deixou de ser capaz de se aplicar. Porque "perdeu a ideia absolutamente mitificada do amor e da relação amorosa, o mito do amor que salva".

A pergunta era - e que perdoe, lá na sua sepultura, o americano Raymond Carver, mais esta contrafacção ao título de um dos seus contos - de que falamos quando falamos de namorar. Também pode ser de que falamos quando falamos de namorados, e, de súbito, este texto "de comportamento" pode transformar-se numa peça política da maior acuidade, convocando por exemplo o primeiro anúncio televisivo anti-homofobia, que na semana passada inaugurou nos ecrãs uma nova forma de luta contra a discriminação, ao encenar num jardim público e à luz do dia um casal de rapazes que se passeiam de mão dada, para escândalo de duas idosas, que quase sufocam no comentário "Que pouca-vergonha! De manga curta com este frio!"

Uma ironia suave que Sérgio Vitorino, da associação Panteras Rosa, faz pesar quando recorda que ainda no Verão passado dois jovens de 15 anos a beijar-se no Parque Eduardo VII, a meio de uma bela tarde de sol, foram abordados por dois agentes da Polícia Muunicipal, que lhes disseram ser aquilo que faziam "proibido" e os mandaram, como era costume há trinta anos, "circular". E, como há trinta anos, quando um dos jovens resolveu recitar a Constituição, os agentes acharam por bem agredi-lo. "Isto", comenta Vitorino sem que a voz lhe traia a fúria, "quando havia mais não sei quantos casais de namorados à volta, a fazer o que fazem os namorados. Com uma pequena diferença eram heterossexuais".

Nada de espantar então que quem se apaixona por alguém do mesmo sexo se engulhe na expressão pública dos gestos de carinho de quem inicia uma relação. "Muitas vezes restringem-nos às quatro paredes da casa. Aconteceu comigo, quando era mais novo o meu primeiro namorado queria dar-me a mão na rua, por exemplo, e eu ficava apavorado."

Nem por acaso, a jornalista Ana Sá Lopes, que nas páginas do Público desenhou, em crónicas reunidas num livro lançado há poucas semanas, a personagem da muito namoradeira e tresloucada Vanessa, que soma flirts e "casos" sem desistir de um princípe encantado, vê no dar das mãos a essência disso a que se chama namoro. "É a coisa mais significativa. Andar de mão dada na rua é o anúncio do namoro, é quando queres que os outros saibam." Uma garotice, um segredo revelado e uma passagem de corrente que define o estado da relação. "Por exemplo, quando se vê um casal de uma certa idade de mão dada é muito comovente. É porque ainda namoram."

Como quem diz, ainda se amam. Ainda "se apetecem", como dizem no dicionário os sinónimos, que a namorar equivalem "arrulhar, atrair, cativar, catrapiscar, cobiçar, cortejar, flertar, galantear, paquerar, graxear, prosear, requebrar, seduzir, afeiçoar-se". Mas também, acrescentam os linguistas, "tourear e azeitar" provocar. O namoro como relação e sua antecâmara, desfecho e prévio cerco.

Um momento de que Ana Sá Lopes sublinha a graça transitória. "É o lado da maior liberdade, do deslumbre, do maior encantamento." Uma terra, diz, a meio de duas fronteiras "Entre essa ausência de compromisso, o epifenómeno afectivo que é 'o caso' e o casamento, que já mete as contas, as promessas de compra e venda, a parte mais adulta."

Entre o caso (ou, numa linguagem mais adolescente, a "curte", a "transa") em que o sexo é princípio, meio e fim, e o casamento, em que faz parte do contrato, o namoro tem uma ressonância quase pudica. De antecipação e descoberta, de intensidade e celebração. Há quem, como Fábio Vieira, o veja como uma longa preparação para a união final dos corpos.

Com a sua namorada, da mesma idade, este açoriano a estudar em Lisboa decidiu optar pela abstinência. "É uma atitude no mínimo radical, eu sei", diz o próprio, num sorriso. "As pessoas da minha idade, quando falamos sobre isso, têm uma atitude no mínimo de espanto. Mas não me influenciam." Nem os amigos nem o "bombardeamento" erótico da sociedade ocidental. "Não tenho uma atitude moralizadora em relação aos outros. Mas hoje em dia os jovens partem logo para o sexo. Nem dão tempo a que o desejo cresça."

Para Fábio, que quis ser padre e estudou numseminário até "sentir um despertar não compatível" com essa entrega, o que se ama é, antes de mais, "a pessoa por dentro". Lara Crespo, de 33 anos, não podia estar mais de acordo. Mulher por dentro e por fora (no que interessa à observação do dia-a-dia), Lara nasceu com os sinais exteriores de masculinidade que ainda hoje - e até ser operada - lhe decretam um lugar de limbo nas relações humanas. "Não tenho namorado agora. É muito complicado um homem assumir uma relação comigo. Não pela reacção de quem nos vê, mas porque, na cabeça deles, é muito difícil integrar esses dois factos eu sou uma mulher mas tenho um pénis."

Transexual ou, como prefere ser chamada, "transgénero", Lara, que crê que "um homem não se define pelo pénis e uma mulher não se define pela vagina", nunca viveu o namoro que sonha. "Na relação mais longa que tive - um ano e dois meses - ele não me dava um beijo em público, nem sequer a mão... só dentro de casa." Mesmo assim, esta "romântica incurável" ainda não desesperou de encontrar "aquele que se vai interessar por mim como pessoa, que me ame e me assuma pelo que sou." E com quem possa passar o Dia dos Damorados ideal "Ir até ao mar, passear um bocado na areia, jantar a dois num restaurante simpático e uma noite a fazer amor."

Toda a gente, parece, tem os mesmos sonhos. Joaquim Marques Rocha, 44 anos, não é excepção, mesmo se nunca soube o que é olhar nos olhos, como os namorados olham, a sua namorada. Mas não foi por isso que, cego desde os 15, "da noite para o dia", devido a uma atrofia do nervo óptico, deixou de procurar o amor. Casou, descasou, namorou, e até, mesmo sem ver, se apaixonou "à primeira vista". Ele explica "Já me aconteceu sentir uma atracção inexplicável ao conhecer uma pessoa. É a voz, a maneira de falar..." Não foi o caso da actual namorada, uma colega de trabalho cujo retrato , da altura ao peso e à cor dos olhos, recita na exactidão "do ouvir dizer", como se inventasse a heroína de um romance - o seu.

Maria Emília Correia, actriz e encenadora que construiu a peça Serviços d'Amores, em cena no Teatro D. Maria, com base em textos de Gil Vicente, assente. "Vivemos sempre de acordo com ficções deus, o país, a felicidade, a paixão, etc. É que muitas vezes o que se ama não é o outro mas o amor em si e a ideia de se estar apaixonado. Aquilo a que se chama felicidade está sujeito a uma permanente revalidação, e é efémera, como o amor. O poeta Vicente sabia disto tudo . E nós também, mas distraímo-nos. Que remédio."

Remédio e única receita tentar, e falhar, e voltar a tentar. Para, como diz Raquel Freire, "Inventar uma forma nobre de alegria com alguém". É isso, namorar.

Publicado no Diário de Notícias.

sexta-feira, fevereiro 11, 2005 

Associação cívica pede processo-crime contra padre de S. João de Brito

Por apelar contra o voto em partidos defensores do aborto e direitos dos homossexuais

A Associação Cívica República e Laicidade pediu hoje à Procuradoria-Geral da República que instaure um processo-crime ao padre Lereno Sebastião Dias, que numa homilia na paróquia de S. João de Brito, em Lisboa, apelou contra o voto em partidos defensores do aborto, eutanásia e direitos dos homossexuais.

Na missa de domingo de dia 6 de Fevereiro, transmitida em directo pela Antena 1, o padre Lereno defendeu que a vida humana vai da concepção à morte e referiu que a ética cristã reprova que sejam equiparadas a famílias, as uniões "de um homem com outro homem" ou "de uma mulher com outra mulher". "Aborto nunca, eutanásia nunca. Poligamia nunca, divórcio nunca", disse o sacerdote durante a missa.

As declarações do padre provocaram reacções de repúdio por parte do Bloco de Esquerda, PCP e do candidato do PS José Sócrates, que as considerou "infelizes".

Por seu turno, o gabinete do Patriarcado de Lisboa, que se escusou a comentar as declarações do padre Lereno, reafirmou a posição da igreja em relação às eleições, remetendo para um documento no qual apelam ao voto com conhecimento dos programas dos candidatos e de acordo com os princípios da doutrina social da Igreja.

Na sequência das reacções sobre o caso, a Associação Cívica República e Laicidade enviou hoje uma carta à Procuradoria-Geral da República na qual considera as declarações do pároco "uma grave prática ilícita" e "um crime público", fundamentando-se nas disposições da Lei Eleitoral da Assembleia da República.

O padre Lereno "infringiu claramente aquela norma legal, incorrendo, portanto, na prática de crime público, que, além do mais, foi ainda publicamente cometido e largamente publicitado", escreve Luís Manuel Mateus, presidente da associação, na missiva a que a Lusa teve acesso.

A mesma entidade sustenta que o prelado violou o artigo 153º da Lei Eleitoral, que prevê seis meses de prisão ou multa de 50 a 500 euros para "o ministro de qualquer culto, que abusando das suas funções ou no exercício das mesmas, se servir delas para constranger ou induzir os eleitores a votar em determinada ou determinadas listas, ou abster-se de votar nelas".

Luís Manuel Mateus insta a Procuradoria-Geral da República a averiguar a situação e fazer o apuramento do eventual ou eventuais responsáveis, de forma a que os autores "possam ser devidamente punidos nos termos da Lei".

Publicado no Público.

quarta-feira, fevereiro 09, 2005 

Igreja aperta cerco à anulação de uniões

Por Manuela Paixão, correspondente em Roma

» Alegar impotência sexual para anular casamento impedirá matrimónio futuro


AP-Plinio Lepri - Vaticano quer contrabalançar ideias liberais de casamento

Os bispos diocesanos podem interditar casamentos futuros se as razões que invalidaram o matrimónio se mantiverem numa futura união. É o caso da impotência sexual. A medida consta do documento canónico Instrução - Dignitas Connubii (Dignidade do Matrimónio), ontem apresentado no Vaticano. O objectivo é criar novas normas, mais apertadas, para a anulação do casamento religioso, evitando que os fiéis o transformem numa espécie de divórcio com consentimento da Igreja.

Em estudo desde 1996, o documento de 219 páginas - em latim e com tradução em italiano - integra 308 artigos com as novas normas para os tribunais eclesiásticos sobre os processos de anulação de casamentos. Segundo o Anuário Estatístico da Igreja de 2002, em 56 236 processos, 46 092 foram anulados, 4649 não apresentaram provas suficientes e 2601 foram retirados.

"Na sociedade actual, até os processos canónicos para a anulação de casamentos correm o risco de poderem ser interpretados como vias alternativas para um divórcio aprovado pela Igreja", declarou o cardeal Julian Herraez, durante a apresentação no Vaticano do Dignitas Connubii. Jurisconsultor da Opus Dei, designado por João Paulo II presidente do Pontifício Conselho para a interpretação dos textos canónicos, o cardeal diz que este documento "exige maior rigor ao mundo" - mais tolerante com a legislação a favor do divórcio, do reconhecimento de uniões de facto e de matrimónios gay.

A maioria hoje crê que os tribunais civis poderiam resolver estes casos de um modo mais satisfatório, "mas a Igreja continua a ter um papel fundamental perante a confusão sobre a identidade do casamento e da família em algumas legislações civis - que não só facilitam o divórcio como põem em dúvida a heterossexualidade como aspecto essencial da união", declarou ainda monsenhor Domenico Sorrentino, secretário da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos.

"As normas apresentadas devem ser escrupulosamente observadas nos tribunais eclesiásticos", já que submeter a validade ou anulação de um matrimónio como se fosse um verdadeiro processo civil tem provocado muitas críticas à Igreja, acrescentou.

Os 800 tribunais diocesanos e interdiocesanos abarrotam com pedidos. A Instrução foi criada para servir de guia para os tribunais eclesiásticos, encarregados pelo Tribunal da Sacra Rota para facilitar o processo de anulação.

Publicado no Diário de Notícias.

terça-feira, fevereiro 08, 2005 

Cartoon de Bandeira



Publicado no Diário de Notícias.

segunda-feira, fevereiro 07, 2005 

Em defesa dos 'bons costumes'

Por Kátia Catulo

Católicos estão contra o casamento de homossexuais

O apelo feito ontem pelo pároco da Igreja de São João de Brito, para que os portugueses não votem nos partidos defensores do aborto, a eutanásia e os direitos dos homossexuais, tem por base um comunicado da Conferência Episcopal. Na homilia, o padre Loreno defendeu que um cristão deve seguir uma ética que não seja contraditória consigo próprio "A vida cristã promove a vida humana desde a concepção até à morte natural. Aborto nunca, eutanásia nunca!"

Na missa, transmitida pela emissora de rádio pública, o clérigo criticou também todos os partidos que defendem o casamento entre homossexuais. Mais uma vez, justificou-se com a doutrina da Igreja Católica para defender a posição "A ética cristã reprova que seja equiparada à família uma união de um homem com outro homem, de uma mulher com outra mulher. A mesma ética reclama que a aliança matrimonial seja indissolúvel. Poligamia nunca, divórcio nunca", concluiu o padre Loreno.

A Igreja recusou, no entanto, comentar o conteúdo da homilia do padre Loreno, não esclarecendo se esta é também a sua posição.O Patriarcado de Lisboa remeteu a resposta para o seu site na Internet.

Isto é, e de acordo com o comunicado da Conferência Episcopal, divulgado em Dezembro de 2004,"o pluralismo político dos católicos não pode ser confundido com relativismo moral".

A Conferência Episcopal salienta que, "perante exigências éticas fundamentais e irrenunciáveis (...), os crentes têm, efectivamente, de saber que está em jogo a essência da ordem moral, que diz respeito ao bem integral da pessoa". Por outro lado, defende a Igreja, a "abstenção é reprovada e considerada uma grave omissão dos deveres de uma consciência católica". De acordo com o documento, o primeiro dever dos cristãos é a "participação responsável".

Embora reconheça que "a ninguém é permitido invocar exclusivamente a favor da própria opinião a autoridade da Igreja", o Patriarcado de Lisboa não poderá argumentar que o pároco de São João de Brito agiu isoladamente. O padre Loreno mais não fez do que repetir a linha doutrinal da Igreja.

Publicado no Diário de Notícias.

 

Igreja critica política social de Madrid

Por Helena Tecedeiro

Zapatero considerou "exageradas" as críticas do Papa

As interferências da Igreja nos assuntos políticos também se têm feito sentir em Espanha. As reformas sociais anunciadas pelo Governo socialista do primeiro-ministro, José Luis Rodríguez Zapatero, têm causado mal-estar entre os representantes da Igreja Católica e o Executivo.

O Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), após vencer as legislativas de Março 2004, anunciou a revisão da Lei do Aborto (que permitirá a interrupção da gravidez até às 12 ou 14 semanas). Em Agosto, o ministro da Justiça espanhol, López Aguilar, garantiu, no entanto, que a alteração do Código Penal, no que toca a esta matéria, não irá ocorrer antes de 2006 e será precedida por um "profundo debate social e político".

O programa de governo socialista prevê ainda a legalização do casamento entre homossexuais, da eutanásia e o uso de embriões humanos em experiências científicas, bem como a defesa de uma escola "pública e laica".

O financiamento de operações de mudança de sexo e a redução dos trâmites legais em caso de divórcio também estão previstos nas reformas sociais do Governo de Zapatero. O Conselho de Ministros já iniciou o debate sobre a lei que permitirá dissolver o casamento em dez dias. Esta medida foi duramente criticada pelas associações de defesa da família.

A Igreja Católica também não ficou indiferente a estes projectos. A primeira reacção surgiu através da Conferência Episcopal Espanhola (CEE) que considerou os projectos socialistas "preocupantes".

Em Junho 2004, durante uma audiência com o primeiro-ministro espanhol, o Papa João Paulo II manifestou a sua preocupação perante as políticas sociais de Madrid. Estas críticas foram repetidas no dia 24 de Janeiro, durante a recepção do Santo Padre a um grupo de bispos espanhóis. O Sumo Pontífice acusou o Executivo de Zapatero de estar a difundir "uma mentalidade inspirada no laicismo".

O Papa condenou o aborto e os casamentos entre homossexuais, pedindo a Madrid que garantisse o direito fundamental à vida, defendesse a família e o ensino da religião católica nas escolas públicas.

Confrontado com estas críticas, o Governo de Zapatero convocou o núncio (embaixador) do Papa em Espanha, o português Manuel Monteiro de Castro, para lhe expressar o seu mal-estar.

Na reunião realizada no Palácio de Santa Cruz, o subsecretário dos Assuntos Externos, Luis Calvo, reafirmou o desejo do Executivo de manter um bom entendimento com a Igreja Católica. Zapatero, por seu lado, considerou "exageradas" as palavras do Papa e garantiu que "Espanha vive o momento de maior liberdade religiosa da sua história".

Publicado no Diário de Notícias.

 

Sócrates contra posições de pároco

José Sócrates considerou, esta segunda-feira, «infeliz» o apelo do pároco da Igreja de São João de Brito de Lisboa, para que os portugueses não votem em partidos defensores do aborto, eutanásia e direitos dos homossexuais. Uma ideia partilhada por Jerónimo Sousa, enquanto Paulo Portas prefere não comentar.

Na sua homilia de domingo, transmitida em directo pela Antena 1, o padre Loreno defendeu que a vida humana vai da concepção à morte e referiu que a ética cristã reprova que seja equiparada à família «uma união de um homem com outro homem» ou de «uma mulher com outra mulher».

Falando aos jornalistas em Fátima, após uma reunião com empresários da região, o secretário-geral do PS repudiou as posições do pároco da Igreja de São João de Brito.

«Foram declarações muito infelizes, mas que o PS não valoriza, porque essas declarações não representam a posição da Igreja Católica», respondeu o líder socialista.

Também Jerónimo de Sousa, do PCP, lamentou as afirmações do pároco, lembrando que o seu partido defende o direito à vida, não podendo, no entanto, aceitar que continue a existir o aborto clandestino no país.

Já o líder do CDS-PP, Paulo Portas, adiantou que não ouviu as declarações do padre Loreno, sublinhando, deste modo, que não quer fazer uma campanha de «casos».

Notícia TSF.

domingo, fevereiro 06, 2005 

Em defesa dos referendos para destituir políticos

Por Fernando Madaíl

O poder económico está "a asfixiar os direitos humanos", sustenta o programa do Partido Humanista (PH), que só não concorre nos círculos dos Açores, Beja, Europa e Resto do Mundo. Para os humanistas, "é prioritário que a saúde e a educação sejam gratuitas e de qualidade". Noutras matérias fracturantes a resposta é favorável à despenalização do aborto, casamento entre homossexuais, adopção de crianças sem atender à orientação sexual, legalização dos imigrantes ("nenhum ser humano é ilegal"), discriminação positiva (quotas nos cargos públicos e políticos para as mulheres e de emprego para os deficientes), revisão das leis laborais.

O PH defende ainda uma reforma do sistema político, uma vez que "vivemos numa democracia formal que está longe da democracia real à qual todos aspiramos". A regionalização deve ser feita com base no mapa das cinco Comissões de Coordenação e o poder judicial submetido a sufrágio universal. Aproveitando os avanços tecnológicos, o partido advoga a possibilidade de se "convocar referendos para destituição de políticos eleitos" ("moções de censura popular") e consultas popular sobre matérias relevantes (como o orçamento).

O Novo Humanismo caracteriza-se pelos conceitos de liberdade, igualdade de direitos e oportunidades, não discriminação e não violência, preconizando a ideia de se vir a constituir uma "nação universal". Esta corrente surgiu em 1969, na Argentina, em torno do pensamento de Mario Rodrigues Cobos, mais conhecido por Silo, que publicou livros como Humanizar a Terra, Cartas aos Meus Amigos ou Fala Silo. O autor argentino, que viria a ter seguidores como Salvatore Puledda ou Luis Ammann, "anteciparia o caminhar para o colapso das estruturas rígidas (sociedades socialistas) e para a mundialização", explica o líder do PH e candidato por Aveiro, Luís Filipe Guerra. Em alternativa, Silo propunha "uma busca profunda do ser humano para encontrar um sentido válido para a existência, em resposta a uma cultura que afirma o dinheiro como valor central".

O movimento deu origem à Internacional Humanista (o próximo congresso da Regional Europeia será em Lisboa, em Novembro de 2006), com os primeiros partidos a surgirem em Espanha (1984) e na Itália, havendo já autarcas eleitos no Chile. Em Portugal, a expressão do PH é reduzida em 2002, obteve pouco mais de 12 mil votos (0,39%); agora, ambiciona 20 mil. Mas pode vir a beneficiar de um certo "mau estar difuso no seio do eleitorado".

Publicado no Diário de Notícias.

 

Perguntas para Uma Legislatura: Partidos com abertura para aumentar direitos de lésbicas e homossexuais

Por São José Almeida

Em véspera de eleições para a Assembleia da República o PÚBLICO seleccionou sete temas que tudo indica estarão em cima da mesa do debate político na próxima legislatura ou que foram suscitados ao longo dos últimos anos de governação.. Sobre eles foi ouvir os líderes dos cinco partidos com assento parlamentar em entrevistas presenciais.

A 23 de Abril de 2004, a Assembleia da República aprovou uma revisão da Constituição em que uma das alterações introduzidas foi o reconhecimento do direito de não discriminação por orientação sexual. No ponto 2 do artigo 13º sob o título de "Princípio da igualdade" onde se lia "Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica ou condição social" foi acrescentada a "orientação sexual".

Defendida desde a revisão de 1992 pelo Partido Ecologista "Os Verdes", esta alteração surgiu, desta vez, de forma pacífica e consensual, até porque ela é imposta por orientações legislativas da União Europeia. A aprovação deste artigo veio tornar transparente a igualdade perante a lei e os direitos que os Estado garante às lésbicas e aos homossexuais.

Mas a lei portuguesa reconhecia, já desde 1999, as uniões de facto e nestas, direitos sociais, como pensões de alimentos e sobrevivência, assim com o direito à herdar contratos de arrendamento. Mas os casais de lésbicas e de homossexuais não têm direito a herdar, uma vez que a herança está associada, na lei portuguesa, à família e ao casamento.

Outro direito que os movimentos lésbicos e homossexuais têm reivindicado, e que foi já defendido ao nível dos partidos pelo BE, é o direito à adopção. O reconhecimento do direito à adopção por casais de lésbicas ou de homossexuais foi, aliás, já este ano, assumido pelo Governo espanhol, numa lei que oficializa também em Espanha os casamentos de lésbicas ou de homossexuais

Perguntas:

Acha que é necessário instituir o casamento dehomossexuais e de lésbicas? Defende o reconhecimento dos direitos de herança mesmo entre uniões de facto homossexuais e lésbicas? Admite reconhecer o direito à adopção por casais homossexuais e lésbicos?

Pedro Santana Lopes, presidente do PSD
Matéria muito complicada


Reconhecer o casamento, não. A legislação portuguesa reconhece a união de facto, concede alguns direitos, ainda tímidos. É a posição correcta, estou de acordo com a legislação que existe, quanto ao casamento, não são matérias em que goste muito de esgrimir preconceitos. Penso que as uniões de facto são uma posição razoável, equilibrada, entre a tolerância e o respeito pela diversidade das pessoas. Foi um passo importante. Agora o casamento não tenciono propô-lo. Já há algum reconhecimento de direitos, há pensão de alimentos e direito à habitação. Penso que em matéria de herança pode haver algum aprofundamento dos direitos resultantes das uniões de facto hetero ou homossexuais. É admissível e compreensível a vontade de aprofundar direitos nessa matéria. Quanto à adopção não faço tenção de a propor, se alguém propuser que o faça. É uma questão em que gostaria de exprimir a minha reserva, a minha prudência, são decisões muito, muito difíceis. Há aqui muitos valores em contradição: obviamente a nossa formação, a estrutura da sociedade não aponta nesse sentido, a formação das crianças e a sua integração dentro da sociedade são esquemas resultantes de princípios e valores em que somos formados. Não excluo, obviamente, a capacidade de dar carinho e apoio, de educar e de formar por parte de qualquer pessoa homo ou heterossexual, bem como a necessidade de muitas crianças terem uma família onde serem integradas e onde crescerem. Mas a integração das crianças criadas por casais homossexuais no seu meio social e na sua escola é uma matéria muito complicada.

José Sócrates, secretário-geral do PS
Não há consenso social


O nosso programa não prevê nada sobre isso. Eu tenho uma posição muito liberal em matéria de costumes. Mas acho também que as sociedades não devem enveredar por caminhos de experimentalismo social. Ninguém na nossa sociedade reclama isso de uma forma significativa, acho que não há um consenso social para se avançar. Portanto, estou convencido que isso é uma matéria que tenha premência e uma dimensão e uma colocação na agenda política que justifique uma proposta política. Vamos fazer a regulamentação das uniões de facto de forma a que a lei possa cumprir a as finalidades sociais e admitimos considerar essa questão, nesse momento. Não é nada que não possa ser defendido. Em relação à adopção, nós temos de ser mais prudentes, a verdade é que não está em jogo apenas os direitos das pessoas, mas stambém os direitos das crianças. Não propomos nenhum avanço sem que isso se baseie num estudo e num consenso social e numa certeza que permita poder avançar.

Paulo Portas, presidente do CDS
Abertura para alterações nas heranças


Não vejo nenhuma pressão social para que isso aconteça. A Maria José Nogueira Pinto tinha uma expressão que eu gosto muito: o Estado não deve olhar pelo buraco da fechadura. A primeira coisa que eu acho relevante é o respeito pelo comportamento das pessoas. O segundo, não acho que as sociedades se dividam por categorias de orientações pessoais. O cidadão é muito mais do que a sua orientação pessoal e uma nação é muito mais que uma federação de grupos sociais. Há legislação portuguesa sobre uniões de facto, não se pode sempre andar a dar saltos do ponto de vista legislativo. Não há sequer nenhum estudo sobre os resultados da legislação. Uma coisa é o respeito pelos comportamentos individuais que é sagrado, outra coisa é não compreender que o casamento tem, na nossa ordem jurídica, um sentido social e um sentido jurídico. Pessoalmente, acho que - preservando a sobriedade e o juízo das pessoas - quem deixa a herança deve ter maior liberdade de disposição pessoal do que actualmente a tradição jurídica portuguesa permite. Agora isto não se aplica só a uma orientação sexual. Quanto à adopção, então aí acho que se está muito longe de ter qualquer consenso na comunidade médica, sendo que o epicentro é a criança.

Jerónimo de Sousa, secretário-geral do PCP
É tempo de "passos mais audaciosos"


Deveria haver uma grande disponibilidade de abertura da discussão deste problema, sem tabus, nem preconceitos. Denunciamos e não aceitamos quaisquer discriminações, nas várias esferas da vida, por razões de orientação sexual. É uma questão de foro privado, dos afectos, na qual ninguém deve interferir. Sentimos a necessidade de serem dados passos sólidos no sentido de ser construída uma sociedade sem descriminações, no que diz respeito à educação sexual, sem falsos moralismos, por uma sexualidade assumida, feliz e saudável. É fundamental dar espaço aos próprios movimentos, que têm lutado em torno destas causas, para que a sua opinião conte para um debate mais alargado na sociedade. A partir dos movimentos, com acolhimento na sociedade e não de medidas legislativas apressadas. É um tempo de avanço, de discussão, de envolvimento dos movimentos. Em relação à herança não temos nenhuma orientação, inserimo-la nesta perspectiva de não estarmos fechados. Admito discutir com outras forças políticas. Quanto à adopção, digo o mesmo. Temos de tratar este assunto com seriedade, sensibilidade e nenhum preconceito. A evolução tende para a aceitação dessa realidade, mas que não sejam medidas de supetão, que, depois, criem clivagens, que acabam por não beneficiar ninguém. Todos os interesses em presença devem estar em cima da mesa. É um processo, mas, insisto, os passos dados até aqui justificam passos mais audaciosos.

Francisco Louçã, dirigente do Bloco de Esquerda
A favor do casamento e da adopção


No programa, defendemos a aplicação do artigo 13º da Constituição, acabar com a discriminação por orientação sexual e permitir uma forma de registo das uniões de facto. São reconhecidas e bem - aliás não provocou nenhum drama na sociedade portuguesa -, mas as formas de registo e de identificação como casal não estão regulamentadas. Sempre defendemos que a união de facto deve ser equiparada ao casamento, para todos esses efeitos de direitos, incluindo o direito de herança. Nós somos a favor do casamento. Pensamos que o passo que tem que ser dado já é complementar a lei das uniões de facto, em relação a direitos, e garantir o registo. E, no futuro, o casamento. Quanto à adopção, o princípio determinante tem de ser o princípio do direito do adoptando e não do adoptante. Tem de se encontrar critérios de selecção das pessoas que vão adoptar com muito rigor e esses critérios devem aplicar-se a casais homossexuais e a heterossexuais.

Publicado no Público.

sexta-feira, fevereiro 04, 2005 

Estado social e casamento 'gay'

Agenda Interna

No plano interno, o discurso de George W. Bush foi dominado pela defesa do seu plano de reforma da segurança social, mas houve referências a outros assuntos polémicos, nomeadamente uma emenda constitucional para "defender a instituição do casamento" e que define esta instituição como o exclusivo de um casal formado por um homem e uma mulher. O Presidente também mencionou a possibilidade de uma iniciativa sobre a utilização cientí- fica de células humanas, não sendo claro se poderá ser revista a anterior proibição de utilização de células estaminais em investigação laboratorial.

Mas a mais controversa das questões internas é, sem dúvida, a da segurança social, que enfrenta a oposição unânime dos democratas no Congresso. Segundo Bush, o sistema está a caminhar para a "falência" e a Casa Branca defende a sua privatização parcial. Os trabalhadores com menos de 55 anos poderiam, a partir de 2009, desviar para contas individuais uma parte do dinheiro que as empresas descontam. Há outras opções em estudo, incluindo cortes nos benefícios ou o aumento da idade da reforma. Os democratas estiveram em silêncio durante grande parte deste segmento da intervenção presidencial.

Publicado no Diário de Notícias.

quarta-feira, fevereiro 02, 2005 

Governo do Canadá Quer Legalizar Casamento Homossexual

O Governo canadiano apresentou ontem um projecto de lei para legalizar o casamento entre casais homossexuais, relançando a contestação por parte de conservadores, grupos religiosos e mesmo de uma facção do partido liberal do primeiro-ministro, Paul Martin.

Intitulado "Lei do Matrimónio Civil", o diploma prevê que o casamento deixe de ser definido como a união entre um homem e uma mulher e passe a ser simplesmente entre "duas pessoas", noticia a AFP.

Em sete das dez províncias canadianas, as uniões homossexuais já são autorizadas. A ser aprovado, o projecto de lei tornaria este matrimónio legal em todo o território.

O facto de os tribunais destas sete regiões terem decidido que a lei actual é inconstitucional foi, aliás, um dos argumentos utilizados pelo ministro da Justiça, autor do diploma, para justificar a necessidade de fazer aprovar este novo texto. Caso contrário, explicou, "gays" e lésbicas estarão a ser alvo de discriminação em três províncias do país.

O projecto prevê igualmente que as Igrejas possam recusar celebrar casamentos entre homossexuais. Ou seja, reforçou o ministro da Justiça, citado pela AFP, a lei prevê simultaneamente a "protecção das minorias" e a "liberdade de religião". A poligamia, a bigamia e o incesto continuarão a ser ilegais, acrescentou.

Apesar da contestação - o arcebispo de Toronto alertou para os "riscos sociais significativos" que podem advir -, o diploma conta com o apoio de uma maioria de deputados, pelo que poderá ser aprovado. Se assim for, o Canadá será o terceiro país, a juntar à Bélgica e à Holanda, onde o casamento homossexual é permitido.

Publicado no Público.

terça-feira, fevereiro 01, 2005 

Casamento de homossexuais

Por Francisco Teixeira, doutorando em Filosofia

» O truque consiste em desviar as atenções dos problemas da região para um assunto antipático

No único comício, e presume-se que principal, do PSD no distrito de Braga, Luís Filipe Menezes e Santana Lopes decidiram, como se tirassem um coelho da cartola, tomar como assunto central o casamento dos homossexuais. Mas o truque do coelho já não pega. Já não tem dramatismo, exotismo ou provoca espanto. Pelo contrário, este tipo de coelhos só provoca enfado e confirma a falta de dimensão dos mágicos, que insistem em tratar os espectadores como crianças grandes rendidas a truques infantis.

O truque, no caso, consiste em desviar as atenções dos graves problemas da região para um assunto supostamente antipático a eleitores supostamente conservadores. Claro que, cá como no país, o casamento dos homossexuais, sendo assunto e tendo relevância para a minoria homossexual, está na décima quinta das prioridades nacionais. Antes encontra-se quase tudo o resto o crescimento económico, o desemprego, os problemas sociais mais variados, a literacia e o acesso à formação e à educação, as reformas do sistema político, do Orçamento, da educação, da saúde, etc., etc.. Mas os mágicos do PSD não pensaram assim. Pensaram que seria mais fácil encandear a plateia com os supostos ataques da Esquerda aos valores tradicionais do catolicismo minhoto de que, claro, o casamento heterossexual é o mais sagrado e mais resplandecente. A manobra é, obviamente, ridícula, mas introduz na campanha um novo vector, o vector moral(ista), que, importado de outras paragens e de outras tradições, pode vir a contagiar a nossa ténue tradição constitucional de justa separação entre aquilo que é do domínio da política (da justiça) e o que é do domínio da moral (do bem). Não que a dimensão pessoal do que é bom não possa e não deva afectar as nossas concepções do que é justo. Nada disso. O problema é quando uma coisa é substituída pela outra. Quando as nossas concepções de bem pretendem substituir as concepções de justiça e interesse públicos, introduzindo na sociedade factores de conflitualidade incomensuráveis. Ainda que sem o saberem (ou sabendo-o e estando-se marimbando para isso), Luís Filipe Menezes e Santana Lopes ensaiaram essa confusão no seu último comício bracarense, apelando para os valores morais (e, subtilmente, religiosos) para justificar valores políticos. Ora, este tipo de deriva reaccionária (porque nos faz recuar a tempos em que a moral e a religião fundavam a política e as relações sociais) sabe-se onde começa mas não se sabe onde acaba, sobretudo num tempo em que os fundamentalismos morais e religiosos parecem emergir com nova e inusitada força.

Poder-se-ia dizer que Santana Lopes e Luís Filipe Menezes fizeram aquilo para que estão programados, dada a sua posição na direita mais conservadora do próprio PSD. Mas isso seria só meia verdade. A outra meia seria a de que ambos estão onde estão na geografia do PSD não tanto pelas suas ideia conservadoras ou reaccionárias, mas antes pelo seu populismo extreme, dado a todos os truques, o mesmo é dizer, dado a todas as excitações populistas, desde que isso sirva os seus interesses eleitorais e independentemente dos efeitos colaterais, ou directos, daquilo que dizem ou fazem. Por isso é que são tão bons a discursar e a discutir. Dada a sua conspícua flexibilidade política e táctica, é, na verdade, impossível fixar-lhes argumentos contra os quais argumentar, ideias contra as quais discutir. Tudo neles é elástico, móvel e fluído. Escapam-se, assim, pelo meio dos dedos de qualquer argumentador, já que não tem ponto de atracção cultural ou ideológico onde se possa parar, para desconstruir ou contra-argumentar. Hoje deu jeito lembrar que os esquerdistas do PS querem destruir o Sagrado Matrimónio Heterossexual, quando toda a gente esperava era que falassem sobre modelos e propostas de desenvolvimento económico e social. Amanhã, lembrar-se-ão de outra coisa qualquer.

Publicado no Jornal de Notícias.

 

«Defesa de valores de direita ou pura chicana política?»

Por Raquel Gomes Freire

Associações de defesa dos direitos dos homossexuais desconfiam do timing de Santana Lopes para falar de casamentos entre Gays

A legalização dos casamentos homossexuais tem sido tratada de forma leviana pelos partidos políticos, na opinião das associações de defesa dos direitos dos gays, que desconfiam da verdadeira razão que levou Santana Lopes a trazer a público o tema, no decorrer de um comício em Famalicão. Para além da forma convicta com que se opôs aos mesmos, o actual primeiro-ministro exigiu ainda que os restantes cabeças-de-lista se pronunciassem sobre esta matéria.

O porquê do timing do cabeça-de- -lista do PSD para abordar esta matéria não se sabe ao certo, uma vez que «nenhum partido, para além do Bloco de Esquerda, contempla esta proposta nos seus programas eleitorais», disse António Serzedelo, da Opus Gay, em declarações a A Capital, aventando que provavelmente, mais do que a defesa dos valores de direita, Santana Lopes queira «imitar Bush e fazer uma campanha fracturante» ou, de um ponto de vista mais estratégico, «porque pretende “roubar” alguns votos ao CDS nestas áreas».

Apesar de ter garantido no mesmo comício que não iria fazer «aproveitamento ou chicana política com a questão do casamento entre homossexuais», a verdade é que Santana deixou passar exactamente o contrário: também ele começa a entrar na lógica «de uma campanha de eventos e episódios e não uma campanha de temas de fundo», acusa Serzedelo.

Em resposta ao cabeça-de-lista do PSD, José Sócrates disse na altura que este «devia estudar um pouco melhor os programas dos outros partidos», acrescentando que o partido socialista não propunha a adopção de crianças nem o casamento entre casais homossexuais, uma posição que, no entender de Fabíola Cardoso, do Clube Safo, «é lamentável»...(Continua na edição impressa)

Publicado no A Capital.

Objectivo

  • O objectivo deste blog é recolher toda a informação relativa ao casamento entre pessoas do mesmo sexo que vá sendo publicada nos principais meios de comunicação portugueses. E a informação publicada no estrangeiro sobre Portugal. Além de textos informativos também serão recolhidos textos de opinião positiva ao casamento homossexual. Este blog não tem qualquer finalidade comercial, no entanto se alguma entidade se sentir lesada ou não permitir a utilização de algum conteúdo constante neste sítio comunique-nos, por favor, através do nosso e-mail, que também deve ser usado para nos enviar qualquer sugestão, dúvida ou comentário. Obrigado.
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