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domingo, fevereiro 22, 2004 

Demita-se

Por Ana Sá Lopes

O pior da família tradicional é a sua capacidade de produção e reprodução de exemplares como o sr. Luís Villas Boas, alegado psicólogo clínico, director do Refúgio Aboim Ascensão, e que é presidente da Comissão de Acompanhamento da Lei da Adopção.

A família tradicional que gerou o sr. Villas-Boas terá interferido com "o normal percurso do exercício da [sua] sexualidade"; a família do sr. Villas-Boas, partindo do princípio que não existe homofobia genética, obrigou-o a "interiorizar atitudes, aprendizagens, reacções do ambiente" onde foi educado. A família do dr. Villas-Boas pariu um perigoso homofóbico. Se a família - tradicional, presume-se - do dr. Villas-Boas o tivesse entregue a uma instituição de acolhimento, eventualmente, o grau de aprendizagem sobre a vida e o sexo do sr. Villas-Boas seria outro, e o sr. Villas-Boas (mesmo que tivesse sido sujeito a violações e maus-tratos, em pequenino, como hoje se sabe ser prática em tantas instituições de acolhimento, vide a Casa Pia) talvez hoje fosse incapaz de dizer enormidades como a de que ser educado por lésbicas ou homossexuais é "uma infelicidade", comparada com a felicidade de passar uma vida toda num internato.

O sr. Villas-Boas podia dizer os disparates que lhe apetecessem caso estes não pagassem imposto. Acontece que, no seu caso, há impostos em jogo: o sr. Villas-Boas é presidente da Comissão de Acompanhamento da Lei da Adopção e os meus e vossos impostos pagam-lhe o vencimento, e não têm culpa que a família tradicional de onde o sr. Villas-Boas é oriundo o tenha transformado num poço de preconceitos que são vertidos na gestão da política de adopção do país.

Segue a lista, para que conste, das verdades 'cientificamente' provadas com que o sr. Villas-Boas brindou o país, na quarta-feira, nas páginas do PÚBLICO: "Ser lésbica não é ser mulher na plenitude natural do termo, porque se assim fosse não haveria o problema da procriação natural"; "A criança não deve ser nunca educada por homossexuais" porque "tal irá interferir com a sua sexualidade natural"; "A comunidade científica mundial sabe hoje que não existe homossexualidade genética" e uma criança educada em ambiente homossexual irá "interiorizar atitudes, aprendizagens, reacções do ambiente onde está".

Ora será normal que um Governo nomeie para um cargo desta delicadeza um homem que afirma que ser homossexual não é um "comportamento normal"? O risco de ter a política de adopção tutelada e contaminada pelo pensamento homofóbico é demasiado grave para minimizar as aleivosias falsamente "científicas" do sr. Villas-Boas.

Publicado no Público.

Objectivo

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